23 março 2026 - 19:15
Ramadã da Resistência: Quando o Mês da Hospitalidade de Deus se Entrelaça com os Sons da Guerra

A coincidência dos dias finais do mês de Ramadã com os sons da guerra não é um acaso, mas uma mensagem profunda: Ramadã é o mês da jihad contra o ego (nafs), prelúdio da jihad contra o inimigo. Os crentes que passaram um mês competindo na servidão a Deus agora são as pessoas mais preparadas para resistir aos agressores. Ramadã termina, mas seu fruto — a taqwa (piedade) e a perseverança — permanece no coração dos crentes, e assim “Ramadã da Resistência” fica registrado na história.

Agência Internacional de Notícias Ahlul-Bayt (a.s.) – ABNA: Às vezes, a história cria cenas que elevam o calendário além de uma simples página, transformando dias em símbolos. Os dias finais do mês de Ramadã deste ano ocupam tal posição; de um lado, o mês da hospitalidade de Deus se aproxima do fim, incluindo a noite que é “melhor que mil meses”, e do outro, os sons da guerra ecoam no ar. Essa coincidência desperta uma pergunta no coração de todo crente: como é possível permanecer em oração no mihrab da adoração e, ao mesmo tempo, estar pronto para o combate no campo da jihad?

Ramadã: Mês da Revelação do Alcorão e Campo de Competição dos Servos

No olhar do Alcorão, o mês de Ramadã é um mês incomparável. Allah diz na Surata Al-Baqara:

«شَهْرُ رَمَضَانَ الَّذِی أُنْزِلَ فِیهِ الْقُرْآنُ هُدًی لِلنَّاسِ وَبَیِّنَاتٍ مِنَ الْهُدَی وَالْفُرْقَانِ» (۱) (Mês de Ramadã é aquele em que o Alcorão foi revelado; um guia para a humanidade, com provas claras de orientação e critério [para distinguir o certo do errado].)

Essa ayah apresenta Ramadã como mês de orientação e separação entre o certo e o errado. Nos dias em que a guerra é imposta, distinguir o certo do errado ganha importância dobrada. Assim como o Alcorão foi revelado em Ramadã para traçar a linha entre o certo e o errado, os crentes neste mês também devem manter clara sua fronteira com os inimigos.

O Imam Hassan (a.s.) descreveu Ramadã em uma expressão luminosa: «إنَّ اللّه َ جَعَلَ شَهرَ رَمضانَ مِضمارا لِخَلقِهِ فَیستَبِقونَ فیهِ بِطاعَتِهِ إلی مَرضاتِهِ» (۲) (Allah fez do mês de Ramadã um campo de corrida para Suas criaturas, para que competissem nEle em obediência rumo à Sua satisfação.)

Essa narrativa compara Ramadã a um campo de competição. Uma competição em que os servos avançam rumo ao paraíso divino pela adoração e servidão. Quão belo é que esse campo de competição, às vezes, se entrelaça com o verdadeiro campo da jihad.

Noite do Decreto e o Destino da Guerra

Nas narrativas islâmicas, a noite do 23º de Ramadã ocupa um lugar especial. O Imam Reza (a.s.) transmite de seus antepassados: «کانَ أمیرُ المؤمنینَ علیه السلام لایَنامُ ثلاثَ لیالٍ: لَیلةَ ثلاثٍ وعِشرِینَ مِن شَهرِ رَمَضانَ، ولَیلةَ الفِطرِ، ولَیلةَ النِّصفِ مِن شَعبانَ، وفیها تُقسَمُ الأرزاقُ والآجالُ وما یَکونُ فی السَّنَةِ» (۳) (O Amir al-Mu'minin (a.s.) não dormia três noites: a noite do 23 de Ramadã, a noite do Eid al-Fitr e a noite do meio de Sha'ban; nessas noites, as provisões são distribuídas, os prazos de vida e tudo o que ocorrerá no ano são determinados.)

Na Noite do Decreto (Laylat al-Qadr), o destino de um ano é decretado. Nos anos em que a guerra é imposta, o destino das nações é decretado na Noite do Decreto, e os crentes, com súplica e oração, tomam nas mãos o destino de si mesmos e de sua ummah.

Jihad contra o Inimigo; Continuação da Jihad contra o Ego

O Alcorão Sagrado, na Surata Al-Ahzab, descreve cenas de guerra e confronto com o inimigo. Na Guerra das Trincheiras, quando os politeístas e hipócritas sitiaram Medina, Allah menciona um grupo que quebrou o pacto: «وَلَقَدْ کَانُوا عَاهَدُوا اللَّهَ مِنْ قَبْلُ لَا یُوَلُّونَ الْأَدْبَارَ وَکَانَ عَهْدُ اللَّهِ مَسْئُولًا» (۴) (Eles já haviam feito um pacto com Allah de que não virariam as costas; e o pacto com Allah será cobrado.)

A perseverança diante do inimigo não é apenas um dever militar, mas o cumprimento do pacto divino. Nos dias finais de Ramadã, os crentes que disciplinaram seu ego por um mês são os seres humanos mais preparados para resistir ao inimigo.

O Imam Hussein (a.s.) explica os níveis da jihad: «إنَّ الْجِهَادَ أَرْبَعَةٌ: ... فَأَمَّا الْوَاجِبُ مِنَ الْجِهَادِ فَجِهَادُ الرَّجُلِ نَفْسَهُ فِی مَعْصِیَةِ اللَّهِ وَ هُوَ أَکْبَرُ الْجِهَادِ» (۵) (A jihad tem quatro tipos... Quanto à jihad obrigatória, é a jihad do homem contra seu próprio ego nas desobediências a Allah, e essa é a maior jihad.)

Essa narrativa luminosa revela a profunda conexão entre Ramadã e jihad. Ramadã é o mês da jihad contra o ego, e a jihad contra o ego é prelúdio e preparo para a jihad contra o inimigo. Quem domina seu ego em Ramadã perseverará também no campo de batalha.

Noites do Decreto sob a Proteção dos Imames Infalíveis (a.s.)

Nos dias finais de Ramadã de 1404 (2026), os crentes se preparam para a Noite do Decreto enquanto os sons da guerra se misturam a ela. Como anunciou o porta-voz do Quartel-General Central Khatam al-Anbiya (s): “A Operação Verdadeira Promessa 4 foi executada com os códigos abençoados ‘Ya Qamar Bani Hashim’, ‘Ya Aba Abdillah al-Hussein (a.s.)’ e ‘Ya Ali bin Musa al-Reza (a.s.)’.”

Essa coincidência recorda que, ao longo da história, os crentes sempre estiveram prontos para a jihad enquanto adoravam. A Noite do Decreto, noite em que as súplicas são atendidas, é o melhor momento para pedir a vitória sobre os inimigos.

Ramadã que Termina, Jihad que Continua

O Eid al-Fitr, dia do fim de Ramadã, é um dia especial segundo o Imam Reza (a.s.): «إِنَّمَا جُعِلَ یَوْمُ الْفِطْرِ الْعِیدَ لِیَکُونَ لِلْمُسْلِمِینَ مُجْتَمَعاً یَجْتَمِعُونَ فِیهِ وَ یَبْرُزُونَ لِلَّهِ» (۶) (O dia do Eid al-Fitr foi feito Eid para que os muçulmanos se reúnam nele e se apresentem a Allah.)

Essa grande reunião dos muçulmanos no Eid al-Fitr pode ser uma exibição de unidade e solidariedade contra os inimigos. Assim como nos recentes operações os combatentes do Islã entraram no campo com códigos ashurenses, no Eid al-Fitr a ummah islâmica exibe sua unidade com o takbir “Allahu Akbar”.

Portanto, a coincidência dos dias finais de Ramadã com os sons da guerra não é um simples acaso. Essa coincidência carrega uma mensagem profunda: Ramadã, mês da jihad contra o ego, é prelúdio da jihad contra o inimigo. Os crentes que competiram um mês na servidão agora são os mais preparados para resistir aos agressores.

A Noite do Decreto deste ano é diferente; tanto noite da revelação do Alcorão e do decreto anual, quanto noite em que os inimigos provam o sabor da resistência da nação iraniana. Aqueles que pensam que com a guerra podem dobrar uma nação que passou um mês na presença do Alcorão estão gravemente enganados.

Ramadã termina, mas a resistência continua. Assim como o Alcorão permanece até o Dia do Juízo como guia, a jihad continuará até a remoção do mal dos inimigos. O mês de Ramadã se foi, mas seu fruto — a taqwa e a perseverança — permanece no coração dos crentes, e assim “Ramadã da Resistência” é registrado na história.

Notas de rodapé: ۱. Al-Baqara / Ayah 185 ۲. Tuhaf al-Uqul, p. 236 ۳. Bihar al-Anwar: 97/88/15 ۴. Al-Ahzab / Ayah 15 ۵. Tuhaf al-Uqul: 243, Mishkat al-Anwar: 431/1442 ۶. Man La Yahduruhu al-Faqih, p. 522

Firoozeh Del-dari (Pesquisadora, Consultora Familiar, Ativista de Mídia e Espaço Virtual)

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